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As exigências do sincero poeta Ezra Pound

Guilherme Delgado

23 de fev. de 2025

O mergulho na obra poundiana exige paciência e poder de articulação, pois mesmo os seus interesses aparentemente mais periféricos contribuem para a elucidação daqueles mais centrais, afinal o caráter ideogrâmico conquistado por sua escrita na maturidade não foi mais do que a materialização do mosaico intemporal que já operava em seu pensamento.

Ezra Pound (1885-1972), poeta de inegável importância para a poesia moderna de língua inglesa, é responsável por uma obra multifacetada e extensa. Seu trabalho como crítico e tradutor permanece como ponto de partida para uma série de discussões e controvérsias das mais frutíferas, graças aos seus defensores mais ferrenhos e seus detratores mais inflexíveis. Com isso, ao falarmos de poesia moderna, podemos apenas apostar quanto tempo levará para o nome de Pound ser mencionado. Foi essa espécie de onipresença que levou o pesquisador canadense Hugh Kenner a intitular o seu influente estudo sobre o modernismo do século XX como The Pound Era (1971), ou seja, a Era Pound. Precursor dos estudos poundianos, Kenner deu lugar a um número incalculável de seguidores. Ano a ano, pesquisas se avolumam entre livros, revistas (a exemplo da Paideuma e da Make It New), ambiente digital de pesquisa (The Cantos Project) e eventos internacionais dedicados exclusivamente ao poeta estadunidense (The Ezra Pound Society). Bons exemplos de um interesse não só renovado e atual, mas também abrangente e revelador, seriam a monumental biografia em três volumes de A. David Moody, Ezra Pound: poet, volume I (2007), II (2014), e III (2015), e as coletâneas de ensaios Ezra Pound in the present: essays on Pound’s contemporaneity (2018) e The Edinburgh Companion to Ezra Pound and the Arts (2019), sendo esta última de caráter interdisciplinar, dedicando-se às relações de Pound com arquitetura, balé, cinema, música, pintura, fotografia e escultura.

 

Em meio a tamanha oferta, o mergulho na obra poundiana exige paciência e poder de articulação, pois mesmo os seus interesses aparentemente mais periféricos contribuem para a elucidação daqueles mais centrais, afinal o caráter ideogrâmico conquistado por sua escrita na maturidade não foi mais do que a materialização do mosaico intemporal que já operava em seu pensamento. Essa, inclusive, foi a saborosa impressão colhida pelo tradutor espanhol Jaime Ferrán quando teve a oportunidade de visitar Pound no hospital psiquiátrico de St. Elizabeth’s durante uma tarde em 1955: “[s]ua conversa tinha a mesma qualidade de seus poemas. Sua conversa passava com igual facilidade de uma língua para outra, utilizava sem qualquer afetação uma ou outra citação literária, uma ou outra referência a qualquer manifestação artística humana”, ficando ele convencido de que o velho Ezra “era um poeta sincero” (FERRÁN, 1973, p. 10, tradução minha).

 

Pound sempre foi ambicioso e falastrão, desde o anúncio prematuro de que “aos trinta anos saberia mais a respeito de poesia do que qualquer outro homem vivo” (ACKROYD, 1991, p. 8) até a mania de observar e analisar cientificamente tudo o que estivesse ao seu alcance. Trata-se de um curioso legítimo, do tipo que sempre assumiu o risco por suas opiniões e análises, afinal dizia: “[o] crítico que não tira suas próprias conclusões, a propósito das medições que ele mesmo fez, não é digno de confiança. Ele não é um medidor mas um repetidor das conclusões de outros homens” (POUND, 2006, p. 33).

 

Nesse sentido, podem surpreender suas primeiras considerações a respeito do cinema como arte, por exemplo, publicadas em setembro de 1918 na revista The New Age sob o título “Kinema, Kinesis, Hepworth, Etc.”: “[o]uvimos falar muito sobre a ‘arte’ do cinema, mas o cinema não é Arte. Arte com A maiúsculo consiste em pintura, escultura, possivelmente arquitetura; além dessas, há atividades, danças, expressões, etc. Arte é uma estase. Um pintor ou um escultor tenta fazer algo que possa ficar parado sem nos entediar” (ELDER, 2019, p. 106, tradução minha). Como destaca o cineasta e professor canadense R. Bruce Elder, “as reflexões de Pound sobre o cinema [...] enfatizam o caráter acelerado e mecânico do tempo cinematográfico” (ELDER, 2019, p. 106, tradução minha), de modo que essa experiência seria incapaz de nos convidar à contemplação tal como fazem outras artes, a exemplo da pintura, dança, música ou teatro. Isso levaria à acusação de Pound de que o tempo cinematográfico seria “mecânico e, portanto, psicologicamente (espiritualmente) nocivo e artisticamente danoso” (ELDER, 2019, p. 107, tradução minha).

 

Embora curiosa, o fato é que o conhecimento dessa consideração aparentemente periférica – o que Pound pensava sobre o cinema – nos leva a elucidar o trecho de um dos seus poemários mais celebrados, Hugh Selwyn Mauberley (1920), quando a voz lírica faz uma espécie de mea culpa, admitindo que a angústia das sociedades modernas e suas vidas aceleradas não encontrariam paralelo na elegância associada aos gregos de Atenas, mas em palcos da época e nos métodos experimentais de montagem do cinema até então. A seguir, cito o poema “II” da primeira parte do Mauberley em minha tradução.

 

II

 

The age demanded an image

Of its accelerated grimace,

Something for the modern stage,

Not, at any rate, an Attic grace;

 

Not, not certainly, the obscure reveries                 25

Of the inward gaze;

Better mendacities

Than the classics in paraphrase!

 

The “age demanded” chiefly a mould in plaster,

Made with no loss of time,                                    30

A prose kinema, not, not assuredly, alabaster

Or the “sculpture”of rhyme.

II

 

A idade exigia afinidade

Com seu esgar acelerado,

Algo que encene a modernidade,

O estilo ático não é mais tolerado;

 

Nem mais as obscuras fantasias                          25

Do olhar ensimesmado;

Antes mendácias

Que um clássico parafraseado!

 

A “idade exigia” mesmo um molde em gesso,

Não uma obra-prima;                                           30

Kinema em prosa, sem alabastro espesso

Nem a “escultura” da rima.

 

 

Observe-se que o poema “II” retoma, inclusive, o termo “kinema” no v. 31, termo esse que fora utilizado no título daquele artigo para The New Age. A escolha não é casual: “kinema” é uma grafia britânica para “cinema” e tanto serve ao jogo vocabular com “kinesis” naquele contexto de publicação em The New Age – uma revista britânica, vale destacar – quanto ao seu desdobramento mais significativo em Hugh Selwyn Mauberley, poema tido pelo próprio autor como o seu adeus a Londres. A esse respeito, Elder observa como “o cinema fornece um molde instantâneo do rosto carrancudo de um tempo que vive uma existência acelerada” e que o trecho em questão ainda sugere que “essa aceleração tem implicações sociais e éticas: quando as vidas carecem da essência necessária ao florescimento humano, as mentiras substituem a verdade alcançada pela autorreflexão. A sociedade perde sua bússola moral” (ELDER, 2019, p. 107, tradução minha).


Como se vê, é muito comum que a figura do crítico (ou do tradutor) ajude a elucidar a do poeta e vice-versa, a ponto de T. S. Eliot afirmar que “[d]e nenhum outro poeta poderá ser mais importante afirmar que sua crítica e sua poesia, sua precepção e sua prática, compõe uma única oeuvre. É necessário ler a poesia de Pound para entender a sua crítica, e ler a sua crítica para entender a sua poesia” (CAMPOS, A., 1993 [1983], p. 21). Assim, a obra de Pound se prova complexa porque é muito difícil dispensar qualquer opinião que ele tenha emitido, qualquer poema ou tradução que ele tenha publicado ou mantido em estágio de manuscrito. A ideia de work in progress, de trabalho sempre em andamento, incapaz de aceitar uma resolução, é a que melhor lhe cabe, e é preciso lê-lo através dessa chave.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ACKROYD, Peter. Ezra Pound: vidas literárias. Tradução de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

 

CAMPOS, Augusto de. “Ezra Pound: ‘Nec spe nec metu’”. In: POUND, Ezra. Poesia. Introdução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, J.L. Grünewald e Mário Faustino; textos críticos de Haroldo de Campos. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993 [1983].

 

ELDER, R. Bruce. “Time, Speed, Precision and the Poetry of the Everyday; or, Ezra Pound’s Cinema Aesthetic”. In: PREDA, Roxana. The Edinburgh Companion to Ezra Pound and the Arts. Edited by Roxana Preda. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2019, p. 106-138.

 

FERRÁN, Jaime. “Una tarde con el viejo Ezra”. In: Introduccion a Ezra Pound: antología general de textos. Versiones de Carmen R. de Velasco y Jaime Ferrán. Barcelona: Barral Editores, 1973, p. 7-16.

 

POUND, Ezra. ABC da literatura. Organização e apresentação Augusto de Campos; tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2006 [1970].

 

***


* Guilherme Delgado é poeta e tradutor. Bacharel em Tradução e mestre em Letras pela Universidade Federal da Paraíba, é doutorando em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Participou das plaquetes Tanto mar sem céu (Lumme Editor, 2017), A noite dentro da ostra (Lumme Editor, 2019), além da antologia 80 balas, 80 poemas (Zunái, 2020), organizadas por Claudio Daniel. Coeditou a revista literária Malembe e traduziu poemas do jovem Ezra Pound. É autor de : (Patuá, 2017).

2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

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