
Claudio Daniel
23 de fev. de 2025
Um poeta com ideias tão retrógradas foi capaz de escrever uma obra tão avançada para o seu tempo, tanto em sua escrita criativa quanto em seus ensaios teóricos, que estão na base do pensamento da poesia moderna
Ezra Pound não foi um estudioso de ciências ocultas, consumidor de ópio ou haxixe, nem homoafetivo ou traficante de escravos, como Rimbaud, nem alcoólatra, como Verlaine; não pintava os cabelos de verde, como Baudelaire, nem se vestia com roupas de marinheiro, como Tristan Corbière. Ele evitava escândalos relacionados à sua vida pessoal, não foi comunista, como Maiakovski, nem fez a apologia da democracia, da ecologia, do pacifismo, como Walt Whitman, Emerson, Thoureau e outros poetas e filósofos transcendentalistas norte-americanos. Pound pertence a uma outra família de poetas e escritores utópicos, que sonha não com um futuro igualitário, mas com o passado da Europa medieval e renascentista. Sua crítica ao sistema financeiro, à usura, é pautada pelo pensamento católico da Idade Média e ele identificava os banqueiros com os judeus, não com uma classe social, a burguesia, e um sistema econômico, o capitalismo. Pound abraçou a causa fascista talvez sem entender a real natureza do fascismo, que é a face mais cruel e trágica do modo de produção capitalista, e que não se limita, cronologicamente, às décadas de 1930 e 1940, uma vez que essa ideologia, reciclada no combate ao comunismo durante e depois da Guerra Fria, domina hoje toda a Europa Oriental, inclusive (ou sobretudo) a Ucrânia, e se espalha cada vez mais pela Europa Ocidental e até mesmo, de modo mais caricatural, na América Latina. Pound, que não se sentia confortável no século XX, era da sociedade de massas, da cultura de entretenimento, da indústria, da imprensa e do Parlamento, viu no fascismo uma alternativa aos dois extremos: o socialismo da União Soviética, que ele abominava, por seu sentido igualitário, e o capitalismo, que ele abominava igualmente por transformar todas as coisas, inclusive a arte, em mercadoria. No fundo, talvez Pound considerasse esses dois modelos de organização econômica e social como as duas faces da mesma moeda: a modernidade, que surgiu com o Iluminismo e a Revolução Francesa. Este, aliás, foi um discurso adotado pelos próprios fascistas, que se consideravam continuadores do Império Romano, e pelos nazistas, que romantizavam a Idade Média e o passado das tribos germânicas. A fantasia ideológica criada pela propaganda fascista foi adotada por Pound, que desejava desembarcar do século XX e voltar ao século XII, época das cantigas dos trovadores, da Divina Comédia de Dante, da pintura de Giotto e das catedrais góticas. Pound não foi o único que acreditou nesse conto de fadas: T. S. Eliot, Fernando Pessoa, Celine, Mishima, Salvador Dali e muitos outros poetas, escritores e artistas se alinharam a posições semelhantes, embora nem todos declarassem apoio direto ao fascismo, como ele fez, realizando inclusive programas de rádio em Roma, em que ele falava sobre Confúcio, poesia chinesa clássica e exortava os soldados norte-americanos a desertarem. O preço que pagou por sua atitude foi uma condenação moral que o levou ao ostracismo, ao limbo dos poetas a serem desprezados por leitores supostamente humanistas, além do tempo que ficou aprisionado em um hospital psiquiátrico para não ser condenado à morte por “traição à pátria”. Pound virou sinônimo de fascismo, o que é uma injustiça, pois sua poesia é talvez a mais importante do século XX, ao lado da poesia de Maiakovski, que abraçou o comunismo e foi o seu antípoda em quase todas as coisas, menos na poesia.
Apesar de seu extremo conservadorismo, a poesia de Pound não é menos moderna ou revolucionária que a de Maiakovski, o que constitui um curioso paradoxo: um poeta com ideias tão retrógradas foi capaz de escrever uma obra tão avançada para o seu tempo, tanto em sua escrita criativa quanto em seus ensaios teóricos, que estão na base do pensamento da poesia moderna. Esta contradição nos faz pensar no compositor alemão Richard Wagner, anarquista e revolucionário na juventude, depois nacionalista, monarquista e reacionário, que mudou a história da música com a ópera Tristão e Isolda, e também em Nelson Rodrigues, Roberto Piva, Jorge Luis Borges e outros autores mais recentes que também defenderam ideias reacionárias, sem deixarem de ser grandes poetas e escritores. De todos eles, porém, Pound foi o que pagou mais caro por suas equivocadas escolhas: preso por traição à pátria, foi encarcerado em uma jaula, em um campo de prisioneiros mantido pelo governo dos Estados Unidos, que ele chamava de “a jaula do gorila”. Levado a julgamento, para que não fosse condenado à morte, foi declarado insano e internado em um hospital psiquiátrico – possível manobra jurídica para que os Estados Unidos não ficassem conhecidos nos registros da história como o país que matou um dos maiores poetas do século XX. Na prisão, Pound dividia o seu tempo entre a tradução das 305 odes clássicas coletadas por Confúcio e o trabalho em seu poema longo Os Cantos, ou Cantares, ao qual se dedicou durante mais de 50 anos, desde 1917 até o seu falecimento, em 1972.
Os Cantos são um autêntico work in progress, ou “obra em progresso”, como o Finnegans wake de James Joyce e é considerada um dos pilares da poesia do século XX, ao lado de The waste land, de T. S. Eliot, o Cemitério marinho, de Paul Valéry, as Elegias de Duíno, de Rilke, e A plenos pulmões, de Maiakovski – lista na qual podemos incluir também a A máquina do mundo de Drummond e as Galáxias de Haroldo de Campos. Em seu quarto no manicômio, Pound dedicava-se ainda a exercícios solitários de boxe, que aprendeu com Ernst Hemingway, em troca de lições de poesia, e a brincadeiras com os esquilos que eventualmente surgiam na janela de seu quarto: ele amarrava um amendoim em um barbante, jogava a guloseima para o esquilo, e, quando ele se aproximava para comer, Pound puxava o barbante, pregando uma peça ao animal. Ao ser libertado do hospital psiquiátrico, em 1957, após um período de 12 anos de internação, viu a sua reputação ainda maculada pelo estigma do fascismo. Até poucas décadas atrás, evitava-se até falar a respeito de Pound, como se ele fosse alguém a ser escondido no porão da história literária, e qualquer um que se dedicasse à leitura e estudo de sua obra era suspeito de também ter convicções fascistas. No Brasil, este preconceito contra o autor dos Cantos foi vencido graças ao trabalho tradutório e ensaístico de Mário Faustino, Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Décio Pignatari, que revelaram ao público brasileiro a imensa riqueza de sua obra, que inclui livros de crítica literária, como o ABC da Literatura e The spirit of the romance, traduções criativas de tragédias gregas, peças do teatro nô japonês, poemas de autores chineses da Dinastia T’ang, trovadores provençais, autores gregos e latinos, e sobretudo a sua própria poesia, rica e diversificada, ao mesmo tempo inovadora e tradicionalista. Após sua morte, o estudo crítico e o reconhecimento de suas obras não deixaram de crescer e hoje ele é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas do século XX.
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* Claudio Daniel é poeta, romancista, crítico literário e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP). Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT. Foi editor, por vinte anos, da revista eletrônica Zunái. Atualmente, Claudio Daniel é editor da revista impressa GROU Cultura e Arte e ministra aulas on-line de criação literária no Laboratório de Criação Poética. Publicou diversos livros de poesia, ensaio e ficção, entre eles Cadernos bestiais: breviário da tragédia brasileira, Portão 7, Marabô Obatalá, Sete olhos & outros poemas e Dialeto açafrão (sob a lua de Gaza), todos de poesia, o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo e os romances Mojubá e A casa das encantadas.