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O poeta que faz sentido em nossa era

José Arnaldo Villar

23 de fev. de 2025

Pound queria uma representação explícita, seja da natureza externa ou da emoção.

Ezra Pound nasceu na cidade de Hailey, no estado de Idaho, em 1885, e estudou na Universidade da Pensilvânia, onde cursou línguas e literaturas românicas, incluindo francês, italiano, provençal e espanhol – graças ao seu conhecimento da língua espanhola e de rudimentos de português, leu Os Lusíadas de Camões no original, escrevendo um pequeno ensaio a respeito. Após formar-se, em 1906, viajou para a EspanhaItália e França. O seu primeiro livro de poemas, A Lume Spento, foi publicado em Veneza em 1908, uma edição de apenas cem exemplares custeada pelo próprio autor. Em uma resenha sobre o livro, publicada na edição de maio de 1909 do Book News Monthly, o autor do artigo escreveu: “Frases em francês e fragmentos de latim e grego pontuam sua poesia. ... Afeito à obscuridade, Pound parece adorar aquilo que é obscuro”. Até mesmo William Carlos Williams, poeta objetivista, um dos nomes centrais da vanguarda norte-americana de 1920 e colega de faculdade de Pound, escreveu-lhe uma carta criticando a amargura dos poemas, ao que Pound respondeu que os poemas de seu livro de estreia eram composições dramáticas, não expressões pessoais – algo similar à ideia de “poesia em gente” de Fernando Pessoa, que está na base da criação dos heterônimos. Pound viajou depois da Itália para a Inglaterra, onde publicou, em 1909, outro livro de caráter dramático, Personae, que recebeu boa acolhida da crítica.


Um artigo publicado no mesmo ano em The Spectator apresenta Pound como um autor com "capacidade de realização poética notável.”  O primeiro grande trabalho crítico de Pound, The Spirit of Romance, foi publicado em 1910, e, segundo o próprio autor, este livro foi uma tentativa de examinar "certas forças, elementos ou qualidades que eram potentes na literatura medieval das línguas latinas e são, creio eu, ainda potentes na nossa". Os poetas estudados nessa obra serão repetidamente citados em seus escritos posteriores, como Dante, Guido Cavalcanti e François Villon, por exemplo. Pound também escreveu diversos artigos de crítica literária para jornais e revistas britânicos, como a New Age, o Egoist, a Little Review e a revista Poetry, nos quais apresentou seus princípios estéticos e indicou suas preferências literárias, artísticas e musicais, oferecendo informações úteis para a interpretação de sua própria poesia.


Na introdução que escreveu para os Ensaios Literários de Ezra Pound, o poeta T.S. Eliot observou: “É necessário ler a poesia de Pound para entender sua crítica e ler sua crítica para entender sua poesia”. Ele foi o poeta-crítico por excelência e talvez o maior pensador da poesia do século XX. Segundo David Perkins “Pound foi o mais influente e, de certa forma, o melhor crítico de poesia na Inglaterra ou nos Estados Unidos”. Por volta de 1912, Pound ajudou a criar o movimento de vanguarda que chamou de Imagismo, baseado na compreensão da imagem poética como “um complexo intelectual e emocional em um instante” ou uma “metáfora interpretativa”. Entre os princípios desse movimento literário, que teve forte influência da visualidade da escrita chinesa e da lógica de justaposição do ideograma, Pound menciona: “1) o tratamento direto da 'coisa' seja subjetiva ou objetiva 2) Não usar absolutamente nenhuma palavra que não seja necessária; 3) Quanto ao ritmo: compor na sequência da frase musical, não na sequência de um metrônomo”. Ou seja, o imagismo pretendia observar e descrever cuidadosamente os fenômenos, fossem eles emoções, sensações ou objetos concretos, e evitar generalidades ou abstrações vagas.


Pound queria uma representação explícita, seja da natureza externa ou da emoção. Pound defendia ainda o uso da linguagem coloquial e da síntese verbal, de modo que não houvesse palavras a mais ou a menos no poema, mas apenas os vocábulos necessários, por sua sonoridade, sentido e força expressiva. Pound também abdicou da métrica convencional e das rimas, afirmando que o ritmo de um poema deve “corresponder exatamente à emoção ou tonalidade da emoção a ser expressa”. O grupo imagista original incluiu apenas Pound, HD (Hilda Doolittle), Richard Aldington, FS Flint e, mais tarde, William Carlos Williams. A poeta norte-americana Amy Lowell também adotou o termo, contribuindo com um poema para a antologia Os Imagistas de 1914, editada por Pound. Nos anos seguintes, Lowell patrocinou suas próprias antologias, que Pound considerou que não atenderem aos padrões do imagismo; desejando se dissociar do que ele chamava de modo irônico de “Amigismo”, mudou o termo”"Imagem” para “Vórtice” e “Imagismo” para “Vorticismo”. Como um princípio estético muito mais abrangente, o vorticismo também se estendeu às artes visuais, incluindo a fotografia, e à música, tendo participado do movimento artistas como o inglês Wyndham Lewis e o escultor francês Henri Gaudier-Breska. As contribuições de Pound no campo da tradução também são notáveis, destacando-se a antologia Cathay, publicada em 1915, com criativas versões do chinês para o inglês de poetas da Dinastia T’ang, como Li Tai Po, ou Li Bai.  Ford Madox Ford, um dos autores da vanguarda norte-americana das primeiras décadas do século passado, considerou esse livro como "uma beleza suprema", que revelava o "poder de Pound de expressar emoções intactas e exatas". T. S. Eliot, por sua vez, ficou tão admirado com Cathay que declarou Pound como “o inventor da poesia chinesa para a nossa época”. Sinólogos criticaram Pound pelas imprecisões das traduções, o que hoje consideraríamos como a liberdade do tradutor para alterar o sentido literal para manter a informação estética dos textos originais. Em The Pound Era, Hugh Kenner apontou que Cathay era tanto uma interpretação quanto uma tradução; os “poemas parafraseiam uma poesia de guerra elegíaca. (…) está entre as mais duradouras de todas as respostas poéticas à Primeira Guerra Mundial”, uma vez que Pound incluiu em Cathay poemas que tratam do tema bélico, em uma alusão indireta e transhistórica ao conflito mundial iniciado em 1914. T. S. Eliot diria ainda que o livro de Pound era “um magnífico exemplo da poesia do século XX”,  e não apenas uma mera tradução.


Hugh Selwyn Mauberley, poema longo que Pound publicou em 1920, é um poema longo, dividido em várias partes, em que o poeta norte-americano denuncia os horrores da guerra, a hipocrisia dos políticos, apresenta o seu pensamento estético e reflete sobre a situação marginal do poeta na época contemporânea, que ele despreza e é desprezado por ela. É o documento que retrata uma época e um dos mais densos e criativos poemas de Pound, ao lado dos Cantos. Outra faceta importante da atividade literária de Pound foi o seu incansável trabalho de incentivo a outros escritores e artistas. Ele persuadiu Harriet Monroe a publicar “A canção de amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, classificando-o em uma carta de 1914 a Monroe como “o melhor poema que já ouvi ou vi de um norte-americano”. Em 1921, ele editou The waste land, de Eliot (publicado no ano seguinte), possivelmente o poema mais importante da era moderna em língua inglesa, cortando inúmeros trechos do texto original, que ele considerou desnecessários. Eliot, por sua vez, aceitou os cortes feitos pelo amigo e dedicou o poema a “Ezra Pound, il miglior fabbro” (o melhor artesão), frase utilizada por Dante, na Divina Comédia, para se referir ao trovador provençal Arnaut Daniel. Em sua introdução ao Poemas escolhidos de Pound, livro publicado em 1928, Eliot declarou ainda: “Sinceramente, considero Ezra Pound o poeta vivo mais importante da língua inglesa”. Pound também foi um dos primeiros a apoiar o romancista irlandês James Joyce, colaborando para a publicação de fragmentos do livro de contos Dublinenses (1914) e do romance Retrato do Artista quando Jovem (1916) em revistas literárias antes de esses textos serem publicados em livro. Forrest Read relatou que Pound descreveu Joyce para o Royal Literary Fund como “sem dúvida, o melhor dos ficcionistas mais jovens”. Read declarou que Pound conseguiu angariar apoio financeiro a Joyce em momentos críticos. Sempre preocupado com o estado de saúde, finanças e atividade literária de Joyce, Pound convenceu-o a deixar Trieste e mudar-se para a capital francesa, numa época em que Paris já abrigava diversos outros poetas e artistas da vanguarda europeia, como Gertrude Stein. Quando Joyce e sua família chegaram em Paris, Pound estava lá para ajudá-los a se estabelecer: ele providenciou hospedagem e empréstimos ... e apresentou Joyce à futura editora de Ulysses (1922), Sylvia Beach. A lista de autores apoiados por Pound é extensa e inclui ainda D. H. Lawrence, Ernst Hemingway e um poeta judeu norte-americano de vanguarda, Louis Zukofsky, contemporâneo do Objetivismo, entre muitos outros jovens talentosos. Segundo testemunho de Hemingway: “Temos Pound, o grande poeta, que dedica, digamos, um quinto de seu tempo à poesia. Com o resto de seu tempo, ele tenta fazer avançar a fortuna, tanto material quanto artística, de seus amigos. Ele os defende quando são atacados, coloca-os em revistas e livra-os da prisão. Ele lhes empresta dinheiro. Ele vende suas fotos. (…) Ele paga suas despesas hospitalares e os dissuade do suicídio. E no final, poucos deles se abstêm de esfaqueá-lo na primeira oportunidade”, algo que podemos afirmar também a respeito de Haroldo de Campos, que ajudou números poetas, escritores e artistas ao longo da vida, muitos dos quais depois se voltaram contra ele. Após a libertação de Pound do hospital psiquiátrico, em 1958, o poeta voltou para a Itália, onde viveu o restante de sua vida. Em 1969, apareceram rascunhos e fragmentos de Cantos CX-CXVII (100 a 117). Pound morreu em novembro de 1972; ele foi enterrado em sua amada Itália, no cemitério da Ilha de São Miguel, em Veneza.


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José Arnaldo Villar é ladrão, gigolô, maconheiro, mau-caráter, qualquer coisa, menos poeta ou participante de panelinhas literárias. Sobrevive fazendo “bicos”, mora com a mãe e aceita receber dinheiro emprestado de parentes e amigos. Não possui conta no Instagram, nem no Tick Tock.  

2022 por Paola Schroeder, Claudio Daniel, Rita Coitinho e André Dick

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