Floresta-nia
- jornalbanquete
- 23 de fev.
- 3 min de leitura
Por Trudruá Dorrico Makuxi

Jayu’jo.
Karu’jo.
Estas duas saudações em guarani saúdam quem aqui chega. Este cumprimento é feito na língua do povo Guarani, pois o título desta obra, Rohayhu, é a declaração universal dos direitos humanos e não humanos, cuja tradução pode ser entendida como Eu te amo. Os poemas que lhe encontrarão falam do tempo de retomada não indígena, que se volta para a floresta após 500 anos de colonização. Para os parentes Guarani, os tempos dividem-se em Ara Ymã e Ara Pyau. O primeiro é o tempo de plantio, o tempo velho, e o segundo o tempo da colheita, o ano novo, e depois o retorno ao tempo velho.
Nesta obra, você não caminha em direção ao futuro, mas ao passado, ao espaço-tempo que sempre existiu e foi cultivado pelas mais de 305 nações existentes neste território Brasil-plurinacional. O eu-lírico destes manifestos poéticos pode ser lido como alguém que busca sua identidade na floresta após ter sido arrasada pelas narrativas, pelo tempo e pelo modo de vida moderno, das máquinas, do paradigma do Antropoceno, como podemos observar no poema que principia o livro, Além da máquina.
Além da máquina exibe um eu-lírico feminino consciente da transformação do homem-natureza em homem-cultura-ocidentalizado. Na seguinte gradação, de quem o mundo era e depois quem foi obrigado a se tornar, lemos: fui esquecendo/saí de cena/primeiro eu que me fui/depois meu sujeito poético se foi a sentada das 8h às 18h, 15 min de almoço/nem lembro mais o que comi/durma acorde seja feliz/ viva rápido e deixe um belo cadáver/faça/excesso de analgesia/ quando o útero chorar cólicas. Aqui é exibido modos de vidas distintos, cujo apelo volta-se à poética do primeiro tempo, ao tempo originário que foi suplantado pela configuração da máquina/cidade/modernidade.
Em Manifesto lemos racho o concreto/sem medo da estrada/sem medo da pisada/sem medo do que virá/desperto em pétalas/em fogueira/uma flor vermelha/intensa poesia/na rigidez do asfalto. A paráfrase a Drummond da irrupção da flor no asfalto, ao invocar a fogueira, manifesta o desejo de presença dos povos indígenas pelo símbolo sagrado guarani. E é na pluralidade de povos que essa tessitura se conforma, por isso vemos vocábulos em diferentes línguas que correm ao longo dos poemas, inclusive recuperando a etimologia indígena de algumas delas como mandacaru, curió, suçuarana, piaba.
Em Canção para espantar correntes ou Acordei ou mesmo em Geositta temos o pisar na terra, os incêndios da ancestralidade, a floresta que não será encontrada no próximo verso. Tudo isso é a consciência de Michelle C. Buss, que a cada palavra-verso – e som – penetra no sentir-pensar-poético com a terra.
Os versos também contestam a história das máquinas e tecnologias de nosso tempo, e da filosofia de todas as conjugações do verbo ter, como desvela no poema Vê?
Os povos indígenas, alheios à ideia dicotômica da natureza versus cultura que ainda é um projeto vigente, sempre tendo vivido como natureza, têm podido fazer com que a poeta – quiçá o mundo – possa novamente sentir que a cura está em nossa primeira pátria.
A voz poética de Michelle C. Buss é ora água movimentada à bússola da lua, ora fogueira e coivara, e vento, cuja leveza é o espírito em sintonia com o corpo. O corpo é o território, o mapa é a floresta, a geografia é a língua, o desejo e amor, todos absolutamente, dessa vez, indivisíveis. Pois é tempo de rohayhu, é tempo de amor, é o tempo da cidadania da floresta. Como declara Ailton Krenak, o futuro é ancestral. Morî pe man!
* citação que alude ao conceito apresentado por Ailton Krenak.
* Jayu’jo, aprendi em guarani esse cumprimento para saudar o parente antes do almoço.
* Karu’jo, por sua vez, é dita depois do almoço.
* Morî pe man expressão equivalente a obrigada em língua macuxi.
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